Canonical: O Sonho da Convergência Morreu

11 de Abril, 2017

Informática, Linux, Marketing, Mercados, Open-Source, Pragmático, Sem categoria

O sonho da convergência morreu para a Canonical e a questão que se coloca é simples: será que morreu para todos também? Ou será que apenas foi uma miragem utópica no horizonte do software? Neste artigo expresso a minha opinião sobre a ideia da convergência e sobre o que aconteceu na Canonical.

No passado dia 5 a Canonical, empresa responsável pelo desenvolvimento do Ubuntu, anunciou um reposicionamento estratégico que incluía abandonar um dos seus projectos mais ambiciosos, o Unity. Este é um ambiente / interface alternativa ao KDE e GNOME que para além de ser uma abordagem fresca ao desktop era centrada na possibilidade de levar o Ubuntu ao telemóvel, tablets e sala de estar. Abandonando o desenvolvimento do Unity a empresa terá também de abandonar o projeto do seu telefone e da convergência no geral. O fundador da Canonical, Mark Shuttleworthtambém referiu que a partir de agora a empresa iria focar-se na cloud e na IoT.

O meu primeiro comentário é sobre o telefone: a Canonical tentou criar um telemóvel para o seu sistema operativo que seria, como dito pelos mesmos “o equivalente da F1 na indústria automóvel para o mercado dos smartphones”. Este projeto surgiu como uma campanha na Indiegogo mas apenas atingiu 40% do financiamento. O projeto era engraçado – até estive tentado a financiá-lo – no entanto 32 mil $ era uma meta demasiado ambiciosa.

Em relação ao Ubuntu Touch (disponível para diversos smartphones compatíveis com Android): a ideia era boa no entanto e, ao contrário do que os fãs da Canonical gostam de admitir, o mercado dos smartphones depende dos ecossistemas criados com lojas como a App Store e Google Play Store. Era óbvio que um sistema novo não ia ter espaço no mercado porque simplesmente nenhuma das grandes empresas ou programadores individuais teria interesse em desenvolver versões das suas aplicações para Ubuntu.

Alguns podem aumentar: “isso não é verdade! Hoje em dia temos de apoiar standards abertos e cada vez mais serviços são aplicações Web escritas em HTML5 e Javascript, logo não o Ubuntu Touch não devera ter este problema”. Resposta: experimentem utilizar um iPhone ou um Samsung e as aplicações nativas do Facebook e Twitter e vejam a diferença na experiência de utilização comparativamente com as versões Web das mesmas. Outra prova que que os “standards abertos” não são suficientes para garantir aplicações de qualidade para dispositivos móveis foi o que aconteceu quando o Facebook tentou lançar uma aplicação baseada em HTML5. Queixas e mais queixas de performance e o próprio Mark Zuckerberg admitiu que a aposta no HTML5 tinha sido um erro.

A Utopia da Convergência

A ideia de poder ligar o telemóvel a um ecrã e ter um computador completo sempre em empolgou e continuo a dizer que isso é o futuro, no entanto não é o futuro da Canonical nem é o futuro a curto prazo. Eu sempre tive as minhas dúvidas de que a convergência da Canonical resultasse pelas seguintes razões 1) a Canonical nunca teve uma percentagem significativa em desktop e 2) a Canonical nunca existiu no mercado dos smartphones.

Como é que uma empresa sem uma posição em nenhum dos mercados poderia ter algum sucesso a tentar transformá-los radicalmente? Óbvio que não iria ter. Durante anos eu disse isto mas agora a prova está aqui. E a Ubuntu TV? Digamos que teve tanto sucesso que o website do projecto está a dar erro 404.

Seria totalmente possível para uma empresa como a Apple ou a Microsoft criar o tipo de convergência que a Canonical criou, a diferença é que as suas primeiras teriam sucesso porque 1) já tinham uma posição sólida em ambos os mercados, 2) tinham uma cota de mercado significativa, 3) conseguiriam convencer os utilizadores a migrar para um modelo de convergência porque na prática já estavam habituados aos seus sistemas operativos e tinham todo o software disponível.

A Microsoft tem uma boa posição para introduzir no mercado uma ideia de convergência igual à da Canonical, no entanto, se virmos bem até eles mesmos consideram que é um risco e convergiram primeiro o tablet e o portátil… Só depois disso se arriscaram a convergir o Surface e o smartphone. Se uma das maiores empresas no mercado tem esta abordagem mais conservadora e mesmo assim tem tido um sucesso limitado como poderia a Canonical esperar, sem utilizadores, conseguir algo?

No fim do dia a convergência foi apenas uma utopia para a Canonical que se transformou rapidamente em desperdício de recursos. Para a Microsoft, a convergência, é um objetivo de médio e longo prazo que está a acontecer lentamente ao ritmo natural.

Sintomas de Um Problema Maior

O que ninguém quer admite (e que eu já repeti várias vezes sobre a Canonical, Ubuntu e todos os seus projetos) é que a Canonical sofre de um problema estrutural clássico que, de uma forma ou de outra, impede que qualquer sistema Linux ganhe uma cota de mercado significativa no desktop.

Mas que problema é este? Falta de uma linguagem de programação e frameworks de alto nível para o desenvolvimento de aplicações. A própria Adobe já admitiu que não desenvolve os seus software para Linux por duas razões: 1) o sistema é instável, são feitas grandes alterações regularmente que obrigaram a reescrever grande parte do seu software… e 2) não existe uma framework de alto nível para o desenvolvimento de aplicações que abstraia os programadores das alterações de baixo nível no sistema.

Como poderia a Canonical resolver isto? Uma solução seria terem adquirido a framework QT e terem apostado nela como a framework única de desenvolvimento para o Ubuntu. Talvez assim fosse possível atingir a estabilidade e os recursos de alto nível necessários para os desenvolvedores… Com um pouco de sorte o Ubuntu tinha-se transformado numa plataforma madura e apetecível aos grandes Adobe, Microsoft, Facebook, Twitter etc. e teriam conseguido realmente transformar a utopia da convergência numa realidade.

Já sei que vou receber diversos comentários a tentar refutar tudo o que escrevi, mas pensem bem por um momento… porque é que empresas como a Microsoft e a Apple passaram anos a desenvolver o C#, Objective-C e Swift? Pela simples razão de ser essencial ter uma framework que permita aos programadores desenvolver aplicações sérias para os seus sistemas… Até a Google tem isto com o Java como a framework preferencial de desenvolvimento para Android.

E claro, depois disto tudo nem sequer abordei a questão da qualidade e utilidade prática, para o utilizador comum do Ubuntu – este é claramente outro dos problemas maiores. Aconselho a leitura deste artigo onde abordo o assunto.

Futuro do Unity e da Convergência

Podem dizer que as notícias recentes e o título deste artigo são uma dramatização da situação mas aqui fica a verdade: mesmo que que o projeto seja mantido por meia dúzia – uma centena de pessoas de que vale isso? Continua a ser mais um projeto irrelevante, utilizado por um grupo minoritário, sem qualquer impacto real no mundo da tecnologia.

TL;DR: abandonar o Unity (e a ideia de convergência) foi uma das melhores decisões recentes da Canonical porque podem concentrar-se no mercado da Cloud e IoT onde realmente têm / podem vir a ter alguma tração e cota de mercado significativa.