Eng. Informática: As Universidades

20 de Setembro, 2015

Pragmático, Programação

NOTA: Este artigo utiliza o exemplo da programação para demonstrar o problema real do ensino universitário na área. Este exemplo pode ser facilmente aplicável às restantes saídas possíveis de Eng. Informática. Os problemas estruturais são os mesmos.

Seguir Eng. Informática ou qualquer outro título universitário na área das TI têm algumas vantagens: em primeiro lugar entrada quase directa num mercado de trabalho que está sempre a recrutar e a garantia de estar envolvido em diversos projectos interessantes. Porém a principal desvantagem é ficar emergido numa área que, em termos universitários, tende a sobrevalorizar aspectos teóricos de pouca utilidade prática. A teoria é importante mas temos de considerar o seguinte:

  1. Grande parte dos alunos não tem experiência de desenvolvimento suficiente / necessidade para tirar partido das matérias lecionadas. No entanto os temas que lhes seriam mais úteis não são lecionados;
  2. Normalmente apenas uma pequena quantidade docentes (< 5% ?) têm experiência relevante na área que leccionam.

Talvez como tentativa de justificar a utilidade das suas aulas, muitos docentes, acabam por focar as aulas nos aspectos teóricos (que muitas vezes nem eles próprios compreendem) em vez de exemplos / tecnologia útil a futuros profissionais. Isto cria um paradoxo: A informática é uma das área que inova mais rápido, no entanto é aquela onde a formação menos evolui e continua a proliferar dogmas e mitos do passado.

Os Mitos Universitários

  1. Aprendam esta tecnologia de 1980 porque tudo o que vem a seguir é igual: Esta é sem dúvida a minha preferida por duas razões: a) Se realmente fosse tudo igual então deveriam ensinar a mais recente já que essa é utilizada no mercado… b) Se é tudo igual porque é que se criou nova tecnologia? Na verdade nova tecnologia é sempre criada para resolver problemas da anterior e aprender tecnologia antiga tem pouco valor. Afinal ninguém quer chegar ao mercado de trabalho e ter de reaprender tudo;
  2. Vais conseguir emprego: Criou-se o mito de que a licenciatura equivale directamente a emprego à saída do curso e bons ordenados… Isto está bem longe da verdade, existem centenas de Eng. Informáticos formados no IST acampados à porta do centro de emprego. Nas TI a única forma de conseguir emprego é com experiência, certificação e demonstrando capacidade;
  3. Vais ser melhor do que um programador sem licenciatura: Provavelmente não. Quem entra em Eng. Informática sem saber programar sairá sem saber. Está estudado que são necessários 7 anos, em média, para ser bom programador;
  4. Não programas se não fores licenciado: Por experiência própria posso dizer que tanto eu como amigos meus, em poucos anos, programamos e ganhamos mais do que outros que tiraram mestrados e estão à 10 anos no mercado. O que conta é a vontade de aprender e resolver os problemas reais que encontramos nas empresas e na sociedade não divagações filosóficas;
  5. A universidade tem mais valor que a certificação: O valor da universidade, pelo menos em Portugal, resume-se a um papel assinado por uma instituição que nos afirma como “profissionais”. Já na certificação os formandos são expostos a problemas reais, que irão ter de resolver no mercado de trabalho, e não são ensinadas tecnologias de 1980.

A Reformulação

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Na minha opinião o principal problema da Eng. Informática foca-se na ausência de uma reformulação profunda. Existiram algumas tentativas de a fazer mas não foram bem sucedidas. Os cursos continuaram praticamente com os mesmos programas, a ser lecionados por docentes sem experiência real.

Muitas vezes, estes docentes, são também pessoas que tentaram ingressar no mercado de trabalho mas que quando se aperceberam que tudo o que sabiam tinha pouca utilidade e decidiram ficar na sua zona de conforto dando aulas nas universidades. Os melhores profissionais é que deveriam das aulas porque só assim conseguimos ensinar de forma eficaz os futuros profissionais e promover a inovação eficaz.

Antes que me digam coisas como “mas na universidade é suposto aprender conceitos de alto nível destinados à construção de grandes sistemas e não coisas práticas particulares”, eu tenho a dizer o seguinte: Para construir esses grandes sistemas com eficácia é importante ter primeiro uma experiência de implementação de pequenas soluções muito vasta que os alunos não tem. E quando a tiverem duas coisas acontecerão: 1) O que aprenderam na faculdade está ainda mais desactualizado 2) O seu sucesso será um produto da experiência do passado profissional, nada mais.

Portanto o ideal seria mesmo reformular os cursos TI focado-os em trazer mais valor aos alunos e prepara-los com uma formação sólida orientada às necessidades reais do mercado.

EDITADO: A reformulação podia ser feita de diversas formas, como por exemplo:

  1. Profissionais de renome a leccionar;
  2. Especializar os cursos: Substituir Eng. Informática por uma dezena de novos cursos mais focados em áreas específicas (como até vemos em alguns países), Desenvolvimento de Software, Redes e Telecomunicações, Gestão Operacional etc…
  3. Aproximação entre empresas e as universidades: Planos de certificação integrados nas licenciaturas ou opcionais. Participação activa dessas empresas na definição dos planos curriculares dos cursos.

O argumento “o curso deverá ser genérico para que os alunos escolherem as áreas que mais gostam” pode parecer tentador, mas com a complexidade actual das TI traz mais malefícios do que benefícios.

Existe uma necessidade real de autonomizar certas dessas áreas, como novos cursos, uma vez que já estão demasiado desenvolvidas para ser possível “ensinar tudo”. Apenas haveria tempo para uma visão geral onde o aluno teria sempre de escolher em que se especializar.

A autonomização de áreas específicas, que se tornaram complexas, já aconteceu na Economia, Sociologia, Psicologia, Linguística etc… Porque não na informática? Afinal informática não é quase um sinónimo inovação? Porquê a demora?

It’s All About Politics

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Provavelmente o problema não está apenas nos docentes, talvez exista uma razão ainda maior para as universidades continuarem a apostar em programas de formação pouco úteis.

Criar a ilusão de uma formação sólida em IT e espalhar os mitos que referi anteriormente dá bastantes vantagens às consultoras e grandes empresas, sendo a principal mão de obra barata. Quando os profissionais recém formados não são capazes de executar nada de útil a única solução é contratar mais profissionais e tê-los a trabalhar mais tempo. Com isto as consultoras conseguem:

  1. Criar a ilusão de grandeza: Aplicações médias que poderiam ser executadas por meia dúzia de programadores passam a ser executadas por dezenas — isto traduz-se mais razões para cobrar horas / dinheiro extra ao cliente;
  2. Conhecimento é poder: Criam um mercado de trabalho onde os profissionais formados afinal não são assim tão bem formados. Quando confrontados, com os resultados práticos do seu trabalho, perdem legitimidade o que torna mais fácil manter os ordenados baixos.

Claro que o resultado prático disto (juntamente com outras razões) são grandes concursos públicos para desenvolver software, que para além do elevado custo, acaba por nunca funcionar, como temos no ministério da educação, ministério da justiça etc…

Conclusão

A universidade, para a área do IT, poderia ser relevante e trazer benefícios reais mas a realidade é bem diferente disso. Precisamos de uma reformulação urgente no ensino universitário para conseguir produzir esses resultados.

Infelizmente não tenho a certeza se essa reformulação é possível devido aos interesses das consultoras, das grandes empresas e dos docentes que ficariam sem trabalho caso acontecesse.

keep-calm-codePara os alunos de Eng. Informática (que querem fazer algo útil): Nunca se esqueçam que os mitos acima não passam disso mesmo, mitos. Afinal tanto o Steve Jobs como o Bill Gates revolucionaram as TI sem qualquer licenciatura. Fazer acontecer e focar-nos nos objectivos, não na forma como chegamos lá, é bem mais importante que tudo o resto e é isso que vos transformará em bons profissionais com um futuro brilhante.