Porque Fechou (realmente) o Wareztuga?

20 de Julho, 2015 | Legal, Mercados, Pirataria, Software

Já não é novidade, o Wareztuga, o maior site de pirataria nacional está fechado. Deixou de ser possível aceder e a empresa responsável pelo domínio (GoDaddy) até já está em processo de venda do mesmo por uma quantia bastante… avantajada. Agora circulam diversas notícias como a seguinte (esquerda.net):

A indústria do cinema será responsável pelo encerramento do maior site de streaming para séries e filmes em Portugal, segundo avança a Exame Informática. A publicação cita a Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais, que esclarece que o Wareztuga fechou após uma operação antipirataria que contou com o apoio de entidades internacionais.

Diversas entidades nacionais tentaram, durante anos, fechar o site, sempre sem sucesso por falta de provas, inconsistências legais nos processos ou por não conseguir localizar onde estavam os servidores do site. Como é que agora sem aviso prévio e sem notificações legais o conseguiram fazer?

A resposta é dada pela própria Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais (FEVIP), que confirmou o encerramento do site na sequência de uma operação internacional. Esta baseou-se na cooperação de uma entidade relacionada com a protecção dos direitos de autor norte-americana.

Esta entidade americana recorreu aos devidos meios legais para obrigar a CloudFlare, uma empresa que protegia a real localização dos servidores do Wareztuga, a divulgar os endereços IP respectivos. Com estes endereços foi possível localizar a empresa de alojamento responsável pelo servidor do site e desliga-lo.

Sendo que já tinham havido várias tentativas por parte das entidades nacionais para fechar o site, porque é que anteriormente nunca foi pedido ao auxilio das entidades americanas que teriam todas as vantagens em ajudar a fechar mais um site de pirataria? No passado fechar o Wareztuga era ideia das organizações nacionais, agora transformou-se numa necessidade americana.

Qual seria a vantagem para os EUA de fechar um pequeno site Português cujo 90% do trafego era de origem nacional. A resposta é simples: um elaborado plano de marketing da Netflix para garantir uma boa entrada (em Setembro) no mercado Português.

A Netflix cotada em bolsa (NYSE), como uma das 500 empresas mais valiosas, conta com cerca de 33 milhões de subscritores norte-americanos do seu serviço onde é possível ver filmes e séries através da Internet. Também opera em diversos países da Europa, totalizando cerca de 60 milhões de subscritores.

O Wareztuga, mesmo sendo um serviço pirata, detinha 100% do mercado do streaming on-demand de conteúdos audio-visuais. A qualidade do vídeo era bastante boa, muitas vezes igual à televisão e era acessível gratuitamente a partir de qualquer navegador de Internet.

Seria impossível para a Netflix ganhar uma cota de mercado significativa pois o Wareztuga servia o mesmo fim, com mesma qualidade, de forma gratuita. Então os gestores do Netflix recorreram à sua grande influência política para que o fecho do Wareztuga fosse uma prioridade do estado norte-americano. Agora resta-nos esperar pelo surgimento e grande sucesso da Netflix em Portugal.

Alguns poderão dizer que isto não passa de uma teoria da conspiração, mas a verdade é que são duas coincidências bastante suspeitas. Sejamos realistas, o estado norte-americano não teria qualquer interesse em fechar pequeno site de pirataria que servia os portugueses.

No meio de tudo isto onde ficam as operadoras nacionais de telecomunicações? Bem… O negócio da televisão por cabo é ligeiramente diferente, não estamos a falar exactamente de conteúdo streaming on-demand. Já foi visto noutros países que os dois serviços podem coexistir já que o seu público alvo é diferente. O Netflix tem como público alvo as gerações mais novas (utilizadores do Wareztuga) e não toda a população como os canais disponibilizados pelas operadoras.

A Netflix garantiu uma entrada fácil num mercado cujo o público alvo está totalmente disponível e até “em desespero” para adquirir o serviço, já que o antigo serviço que servia esta necessidade desapareceu. Estas acções ainda foram estrategicamente planeadas, não muito cedo, nem muito tarde — estamos a um mês do lançamento do serviço em Portugal o que significa que é impossível surgir um novo site igual ao Wareztuga ou qualquer outro serviço pago semelhante.

Os responsáveis pelo Wareztuga afirmam que partiram de consciência livre e que cumpriram a sua missão, mas será que isto foi mesmo assim? Ou será que também estiveram no raio de influência da Netflix? Relembro que o negócio do Wareztuga, baseado em publicidade, foi avaliado em cerca de três milhões de euros.